Manassés Filho

Dono da Comic House

No único quiosque aberto aquela hora na orla marítima de Jampa City, Deisy e Manassés abundam-se em uma das mesa, frente ao mar.

DM – Quer pedir um café? Suco?

MF – Um suco de limão, e você, Deisy?

DM – Ah, se eu não tomar um café agora, eu morro. (são 3:57 de uma terça-feira. O garçom se aproxima sem a menor vontade) Por favor, traz pra gente um suco de limão e um café? Obrigada. (ao Manassés) Vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?

MF – Deisy, vindo de você nada é desnecessário!

DM – Ah, que fofo! Que diabos aconteceu com você para se interessar tanto por quadrinhos?

MF – Uma boa pergunta. Bem que eu queria saber!!! (risos)

DM –  Deve ser doença.

MF – Mas para falar a verdade foi um momento de transição entre ler quadrinhos e que chamo de ser um leitor, de fazer a imersão no texto, nas imagens. De entender aquilo que tinhas mãos e não ler e ficar comentando sobre poderes, vilões, heróis e coisas do tipo. Foi nesta busca que encontrei Moacy Cirne, Álvaro de Moya, Paul Gravett, Sônia  Bibe Luyten, Cagnin, Einser, Scott McCloud e outros verdadeiros heróis que dedicaram suas vidas para estudar e nos expor suas impressões com relação a linguagem dos quadrinhos seja como arte ou veículo de comunicação.

DM – A liga da justiça!! Ainda tenho “O que é história em quadrinhos?” da Sônia lá em casa em algum lugar. Agora… você me diz que a linguagem de quadrinhos pode ser duas coisas: arte e veículo de comunicação. O que separa?

MF – Boa pergunta, Deisy! A resposta para alguns é uma provação mesmo. E em algumas vezes causa essa estranheza! Na verdade, é mais uma questão pessoal do que fazer afronta a algum teórico ou a produção de alguém. O que acontece é algumas produções quando encomendas são realizadas por órgãos públicos ou privados por exemplo, ela tem mais por objetivo ser um veículo de comunicação do que as duas coisas, ou seja arte e veículo de comunicação. Neste caso essa produção muitas vezes não concede ao quadrinista liberdade na criação e desenvolvimento. E certamente, não quero dizer que a obra é para ser descartada, mas fico triste quando vejo algo desta forma acontecer.

GARÇOM – Suco?

MF – É meu. (pegando o copo) Obrigado.

DM – (pegando a xícara) Obrigada.

       A essa hora dá para se presumir que há poucos clientes ali. Para ser sincero, apenas eles dois e mais uma alma penada que acaba de chegar. Una mujer elegantemente vestida. Senta-se em um lugar mais reservado. Pede um cappuccino e uma água sem gás, ficando por ali, observando com expressão grave as primeiras ondas que quebram, uma atrás da outra. Além delas, apenas o breu absoluto.

DM – Mana, Mana, Mana…

MF – O que foi, Deisy?

DM – O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. A essas horas vale tudo. (bebendo café)

MF – Hmm… (depois de um longe gole de seu suco de limão) Acredito que um misto dos dois, mas para falar a verdade, o que mais aprecio é a simplicidade da história, quando o autor tem a sensibilidade de colocar no papel as situações que vive ou testemunha. De ler algo em que o personagem não seja repleto de certezas, mas que não seja recheado de dúvidas, que seja crível. Que esteja em busca se saber como montar o seu quebra cabeça pessoal, perder-se em jornada ou contribuir com a dos outros.

DM – Que lindo, Mana. O que aconteceu? Está mais excitado hoje. (cafezando) 

MF – Que é isso, Deisy? Hehehe.

DM – E o que é mais broxante?

MF – Uma história pretensiosa ou pior disfarçadamente pretensiosa.(as sobrancelhas de Deisy se anunciam) Algumas vezes alguns autores pensam que produzir algo repleto de referências ou revestido daquela aura de complexidade é sinônimo de consistência, mas para mim o tiro acaba saindo pela culatra. Algumas vezes, o cara esquece de não aprofundar os personagens, não amarra a narrativa, não tem fluidez, fica mecânica, engessada. Obviamente o autor empregou seu tempo, fez seu melhor, suou a camisa pra produzir, mas infelizmente  ele esqueceu que ela precisa de um coração. A obra precisa dialogar com leitor, é quase como se a partir daquele momento quem vai ler ganhasse um grande amigo, mas que ao não ser correspondido, infelizmente, por mais triste que seja alguém irá ser abandonado. (o coração de Deisy salta da boca, caindo bem cima de sua xícara de café que espirra um pouco, chamando atenção até mesmo da mulher misteriosa) 

MF – Eita!

DM – Desculpa… (guardando seu coração na bolsa – o que é um perigo!)

MF – Tá tudo bem aí?

DM – Não, tudo bem. Às vezes acontece. (limpando os respingos que caíram sobre a mesa) Não esquenta. É uma espécie de soluço que eu tenho quando tomo café muito rápido. Mas continue. Você tava falando da comunicação do autor e tal.

MF – Certeza?

DM – Sim, muchacho.

MF – Então tá bom. É aquela coisa, a obra precisa dialogar com leitor, é quase como se a partir daquele momento que vai ler ganhasse um grande amigo, mas que ao não ser correspondido, infelizmente, por mais triste que seja, alguém irá ser abandonado. (bebendo seu suco)

DM – (conferindo se o coração continua batendo dentro da bolsa) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando. (matando seu café)

MF – Essa é fácil…seria Tangências, de Miguelanxo Prado.

MF – Ahhh, essa é das que eu não tenho… Mas sei que é foda pracaralho. Falando nisso: uma quadrinista foda e porquê?

MF –Na verdade, tenho duas!

MF – Ui!

MF –A Louise Simonson e Debbie Drechsler, a primeira por encontra-se na produção de quadrinhos de super-heróis no início dos anos 80, quando a predominância era masculina e a segunda pela coragem de produzir um quadrinho autobiográfico intitulado Daddy’s Girl, em que ela narra os abusos sofridos na infância.

DM – Foooda! Louise é histórica. Vou deixar um link pra quem não a conhece cair pra trás com a produção dessa mulher. E a Debbie… Me pegou de voadora no peito! PAH! Sou vulnerável a essas coisas, você sabe. (Mana termina de beber seu suco) Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

MF –Eitá, que pergunta difícil! Vou te dizer, eu, não  gosto da ideia de escolher uma e excluir tanta coisa que de certa forma mudou minha forma de pensar ou me fez refletir bastante. Pra mim é como se apenas uma determinada situação tenha me deixado de queixo caído. Então, Deisy, você me permite citar mais de um?

DM – Meta bronca!

MF – Que bom! Então, vamos lá!  Em Lobo Solitário o reencontro de Itto Ogami e Daigoro, após uma dramática separação. A história Tangências de Miguelanxo Prado, por sinal batiza o álbum. Uma história de uma sensibilidade incrível. O silêncio permeia a obra por um todo, e só é quebrada pelo narrador que nos apresenta um casal que quando jovens se separam por suas ambições e que  ao se reencontrarem são adultos frustrados em uma busca por um tempo perdido;  Maus quando Vladek  ao falar sobre que os que sobreviveram, ele diz que demais dos familiares nem as fotos eles possui; e por fim, Gen – Pés Descalços, o momento em que um relutante pai não aceita a decisão do filho em alistar-se no exército e lutar contra os aliados e que não se despede dele ao entrar no trem, mas que acaba lhe concedendo uma emocionante surpresa.

DM – Ui, ui, ui! Querido, vou te fazer uma pergunta indecente. Posso?

MF – Pode sim! Vamos ver o quanto é indecente sua proposta.(“Naquele momento vi Deisy colocar aquele tipo de sorriso maroto e em seus olhos brilhavam aquela doce malícia”)

DM – Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

MF – (“E pra minha surpresa, era o tipo de pergunta pra causar reboliço, nada demais! E cai na gargalhada e respondi sem pestanejar”) Seria Corto Maltese.

DM – Se fosse só você a gente dava um jeito. Imagine…

MF – Por quê? Outros queriam ser o Corto Maltese?

DM – Uma porrada!

MF – Então peraí…

DM – Vixe! Agora já era! Imagine que você está na pele do Corto e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

MF –Literalmente ser um homem do mundo como ele.De desbravar. De me aventurar. De ir, não fui, e conhecer quem sonho em conhecer. Se bem que pelo menos, hoje, tenho menos uma pessoa pra conhecer. (“Deisy me olha com aquele sorriso, meio que desconfiada e completo”)… Você! (“olhei profundamente em seus olhos e nos perdemos em nossos pensamentos regados a boas risadas”)

      A verdade é que não foi bem assim. Manassés apontou seus dois dedões em um sinal de joia avassalador. Deisy, fria como o gelo, mediu o tamanho daqueles dedos e não pensou mais nada. Decidindo ignorar o chaveco furado, continuou:

DM – Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero, Mana. Como foi para você ser abduzido?

MF – Foi inesperado, porém bem diferente do que imaginava. Nada de teclados emulando comunicação, et’s que queriam ligar pra suas casas ou anões filosóficos com pretensões para serem mestres.

DM – Ainda bem, não é mesmo? Obrigada pela entrevista, querido. Aceita uma sobremesa?

MF – Claro que sim, Deisy! Assim podemos continuar nossa conversa.

DM – Que meiguinho. (risos) Pode escolher o que quiser do cardápio. (Manassés passa a vista pelas opções demoradamente) Quer dizer então que o senhor sonhava em me conhecer, é? Hahaha, me economize, rapá! Mas sabe, quando a gente tava lá na tua loja com o Quintanilha e o Audaci, você falou que o pessoal tá indo mais atrás das HQs independentes e menos mangás e superheróis. Achei lindo. Mas quero ouvir de você: Há alguma razão específica?

MF – Sobre as reviravolta no mercado,  é que o perfil vem mudando. As HQ’s em capa dura tem cada vez mais conquistado o público. É o momento quadrinho ostentação! Hehehehehe. A turma tá afim de comprar edições edições definitivas, capa dura, luxo!

DM – Pra ostentar na estante, né?

MF – Por outro lado, as edições autorias cada vez mais tem conquistado uma parcela maior de  leitores por apresentarem a saída da zona conforto. De provocar o leitor. De despertar questionamentos. Me remexer com os neurônios da turma!
Eu, particularmente como vendedor, gosto de apresentar ao cliente várias opções. Acredito que é a nossa parcela de participação na formação do leitor. Atualmente existem muitos canais de comunicação, muita gente falando, e isto acaba causando um ruído tremendo para o leitor filtrar. É necessário o vendedor ser um vendedor realmente, e não apenas um despachante, preocupado em realizar a venda e receber o dinheiro, certamente é melhor vender um quadrinho mais barato e saber que fiz minha parte, do que olhar o leitor como um saco de dinheiro. Acabo ganhando duas coisas…a confiança e um amigo cliente.

DM – Já falei que te amo hoje?

MF – Não, Deisy.

DM – Seria mentira.

MF – Hehehehe.

           Os primeiros raios do sol começam a despontar atrás do mar de João Pessoa. Bonito.

 

manasses-flho

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s