Berliac

Inverso (Kuš!), Playground (Ed. Valientes), Cien Volando (Ed. Llantodemudo), DGWM ( Ed. La Pinta)

DM – Quer pedir um café? Suco?

BY- Um cortado. Tem isso no Brasil?

DM – Aqui eu sei que tem. O Agustim Graham pediu o mesmo quando veio aqui.

BY – Ok.

DM – Vou fazer umas perguntas desnecessárias, tudo bem?

BY – (olhando o cardápio) Espera. Não quero café. Quero um Arizona Ice Tea.

DM – Tudo bem. (o garçom se aproxima)

GARÇOM – Já sabem o que vão pedir?

DM – Já. Um café e um Arizona Ice Tea. Tem esse?

GARÇOM – Vou dar uma olhada. Mais alguma coisa?

DM – Por enquanto só isso mesmo. Obrigada. (ao Berliac) Que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos?

BY- Eu era um músico profissional há vários anos. Um dia eu acordei com uma ressaca, duas mulheres na cama, pensei, por que estou fazendo isso? Então eu parei a música. E fiquei com as mulheres, isso sim.

DM – Mas que safadenho… Onde posso ouvir sua música? Tem um registro dela? Soundcloud?

BY- Não era a minha música, eu era contratado por bandas de rock ao vivo para tocar alguns números.

DM – Ao menos a música não tem nada o que lamentar.

BY – Quem eles eram agora não é mesmo relevante.

DM – Entendo. (o café e Arizona são servidos) Obrigada.

BY- Hmm… (abrindo a lata) Eu acho que os mesmos problemas que tem a HQ tem a indústria da música: Ego. (bebendo a Ice)

DM – Sim.

BY- Ou seja, mais ego do que o trabalho.

DM – “Siempre.” (vou no meu cafezinho)   

BY- É uma indústria dominada por homens, o que podemos esperar?

DM – Uma boa merda, isso sim. (risos)

BY- Não é o mesmo que eu acordar com duas mulheres na cama como você, né Deisy? (solto meu olhar mais congelante) Você vê? Lá você tem uma opinião sexista. Quem se importa com o que eu tenho a dizer, de qualquer maneira.

DM – Mas nós, mulheres, estamos abrindo espaço fórceps.

BY- Sim, está abrindo espaços, mas não por serem mulheres, e sim por não homens. Honestamente, não acho que o que uma mulher pode trazer para os quadrinhos seja tão distinto ao que você tenha que fornecer um “terceiro tipo de gênero”. E o fato de que não se definem como dominante, é um valor excepcional. (bebendo sua Arizona)

DM – (sendo cínica) Você deu conta das duas mulheres? E de três?

BY- Quando disse duas mulheres era uma metáfora para HQ e música.

DM – Ahhhh…

BY – Durante os 6 anos que vivi em Barcelona, não fiz HQ. Só música. E pintura (creio que isso se reflete em alguns dos meus trabalhos). (abaixo a guarda totalmente) Quando voltei à Argentina, continuei com a música por necessidade econômica, mas todos os meus amigos estavam fazendo HQ. Assim, regressar à HQ era uma maneira de reencontrar meus amigos. Minhas primeiras HQs eram quase uma caricatura do “porteño”. (esboço um sorriso pra ele) Foi uma forma de recuperar tudo o que meu tempo na Europa “lavó”, por assim dizer. Minha forma de falar, de vestir. Eu mesmo era quase uma caricatura de “porteño. (risos) Ou seja, o “porteño épico, não? O tango, etc…

DM – Deve ter sido a urgência em voltar às origens, em sentir-se em casa.

BY – Si, si.

DM – Música, pintura, quadrinhos, quando entendemos como as coisas funcionam percebemos que são muito semelhantes. (mato meu café) 

BY- Não sei. Para mim, as coisas não funcionam. “Fazer” é na realidade criar uma aparência de funcionamento. Ou seja, o leitor percebe como algo em funcionamento, mas o criador sabe que tudo é ilusão. Em qualquer caso, sabemos como não funcionam.

DM – Ao menos o que importa.

BY – Por exemplo, pegue meu livro “Playground”, citado em “Bulldogma”. Nesse livro eu falo mais do que não é hq, do que o que é. Inclusive no final eu digo, “gostaria fosse HQ”, etc. Estou admitindo que não é. Pois bem, é uma idéia budista, não?

DM – Sim.

BY – Ou existencialista, em tempos mais modernos. Nada é, tudo é transição. (dando mais um gole de seu Ice Tea)

DM – (caem de meus olhos pequenos corações, enchendo a xícara vazia a minha frente) Então temos um longo caminho pela frente, Mr. Bauman. (risos) O que nos leva a próxima pergunta: O que é mais “broxante”?

BY – O que é “broxante”?

DM – É uma maldição.

BY – …

DM – É, tipo… (não vou falar sobre o não funcionamento peniano) O que mais lhe desagrada em uma narrativa gráfica?

BY – Acho que o que desagrada nos quadrinhos é mesmo seu estilo de vida. Se é, como eu, uma pessoa autodestrutiva, você pode fazer música, HQ, tecido crochet, agricultura biológica, tudo será broxxante.

DM – Hahhahah, sei como se sente.

BY – Ou seja, agora mesmo não estou abusando de meu corpo tanto quando fazia música. Provavelmente, quando fazia música o maltratava com substâncias, e agora com 16 horas de trabalho por dia, sem ver amigos, sem sair de casa, sem comer bem… Corpo… Ah! Eu sei a resposta. O broxante nos quadrinhos é, para pessoas como eu, como a música que alimenta o ego mais imediatamente.

DM – “Esto es muy broxante”.

BY – Aplauso, groupies, álcool, drogas. Tudo isso, digamos, tem a música de imediato. Em troca, a HQ, não. Mas na HQ o “high” é mais duradouro. Se alguém entra nesse estado, dura mais tempo. É o que Tatsumi chama “runner’s high”, não? Hanselmann Simon também disse em uma entrevista que nada se compara a terminar um trabalho. E veja que Simon ama substâncias, ainda, hehe.

DM – Hehe.

BY – Basicamente, é sentir que você não vai morrer. É para isso que fazemos arte, não?

DM – Acho que sim.

BY – Eu odeio pessoas que fazem arte “por amor” ou para mudar o mundo, etc. Hipocritas de mierda.

DM – Hipocritas de mierda! Mas, realmente, nada como uma obra terminada. Em um de meus livros preferidos há um trecho perfeito sobre isso. O Templo do Pavilhão Dourado do Yukio Mishima, onde o personagem principal deita-se na grama para fumar um cigarro com aquela sensação de dever cumprido enquanto o mundo lá embaixo arde em chamas.

BY – Sim. Eu também falava do “runner’s high “, isto é, um estado “durante” a criação. Mas inclusive isso no rock é mais fácil do que na HQ. 1-2-3-4, música soa e se entra nesse estado mais fácil. HQ é mais complicado, mas não impossível. Estava discutindo com Pedro Franz, há pouco, sobre isso mesmo em Playground, a HQ não como uma obra, mas com performance. As redes sociais ajudam muito a deixar de registos dessas performances. Antigamente fazer HQ era algo anônimo. Ou seja, a obra tinha um autor, é claro, mas o público não tem acesso ao “ato” de fazer quadrinhos.

DM – Pedro também tem investido na área de exposições, estendendo os limites da HQ.  É uma bela performance.

BY – Depende. Marina Abramovic se sentou por horas sem fazer nada e recebeu milhares e milhares de dólares. Sentamos o dobro de horas fazendo quadrinhos e ninguém nos paga nada.

DM – Cest la vie.

BY – É isso o que eu discuto, não há diferença entre a vida e perfomance no momento da performance, não? Por isso não é “vida”, o problema, é a “performance”.

DM – Estou tendo problemas com performance sexual.

BY – Por quê?

DM – Por inexistência. (risos) Bem, uma vez Rafael Coutinho foi inflexível, como sempre é, e ele disse que os quadrinhos não são o primo pobre do cinema. Acho que você pensa o mesmo. Mas diga aí uma história em quadrinhos que seria interessante ver na tela grande. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar alguma grana com a cessão de direitos de autor ou morrer tentando, já que ninguém paga pela nossa performance em quadrinhos.

BY – Bem, creio que o Rafa se refere a linguagem.

DM – Sim.

BY – Mas isso também significa dizer que se o filme ganha milhões, a HQ também deveria. Nisso estou de acordo. (liquidando o chá)

DM – Putz, esqueci de perguntar: O que é mais excitante em uma narrativa gráfica? Física ou mental, que seja. Fique à vontade. Eu deveria ter feito essa pergunta antes…

BY – Estou pensando….

DM – Pense com carinho.

BY – Não sei. Só sei que quando eu leio “Akira”, automaticamente penso: “Eu também quero fazer isso!”

DM – Hahahaha, eu também!

BY – É como assistir o final de “Midnight Cowboy” e pensar “uau, eu quero morrer assim.” Não é algo intelectual.

DM – É emocional.

BY – Claro. Eu acho que, no fundo, todos nós queremos voltar à infância, não? O útero, mas….

DM – Tão quente e úmido…

BY – Não, eu não acho que é isso. Creio que o útero em todo caso é não ter ego. O que é contraditório, porque o ato criativo é algo muito egoísta. A forma de chegar a esse estado sem ego é mediante um ato egoísta.

DM – Mas não deixa de ser um lugar para se deixar esquecer.

BY – O que você lia quando niña?

DM – Superaventuras Marvel?

BY – Bem, e nesse momento enquanto lia, você sentia seu ego? Ou se abandonava?

DM – Abandonava. Completamente.

BY – Bom, é isso que eu chamo de útero.

DM – O meu está ovulando agora mesmo.

BY – Isso que você disse do Pedro de estender os limites dos quadrinhos. Acredito que Pedro busca estender os limites como pessoa ou artista. Agora, para conseguir isso, você deve criar um outro tipo de HQ.

DM – Que outro tipo?

BY – Uma HQ que…

           Uma sirene ensurdecedora  como aquela de Silent Hill cobre nossas falas. Os poucos clientes e funcionários vão lá pra fora, assustados. Algumas pessoas passam correndo pela rua.

BY – Que se passa?

DM – Não sei.

Os funcionários abandonam o barco, seguem o fluxo. Ficamos só nós dois ali.

BY – Parece grave, não?

DM – Sempre é.(levanto-me em direção a geladeira) Quer mais um chá?

BY – Sim. Por que, não?

DM – (abro a porta e alcanço o chá e uma cerveja para mim que não sou boba nem nada) Você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès?

BY – Sim, eu li “O gosto de cloro.” Naquela época, eu gostei, mas eu era jovem e ainda acreditavam no amor.

DM – Hahaha, bem vindo ao meu mundo. No final vamos nos abraçar como o Pica-Pau e o Zeca Urubu, cantando adeus ao objeto amado. Mas antes, no Gosto do Cloro tem aquela cena onde a personagem diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que é. Achei lindo. Tem alguma cena dos quadrinhos digna de se comentar aqui? (entrego o chá pra ele)

BY – (abrindo a lata) A cena quando Kaneda é absorvido por Akira e há uma sucessão de flashbacks. Também a luta entre Freeza e Gokú é muito boa. Ahh, e a cena do Capitão Tsubasa quando Steve Hyuga está em treinamento, chutando a bola contra as ondas, e, assim, descobre o “chute del tigre”. É emocionante.

DM – (abro a long neck no muque) Não tenho a menor dúvida que seja. Uma pergunta indecente agora. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas… Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? (bebo)

BY – Seria Doraemon. Não. Seria Shin Chan.

DM – Imagine que você está na pele do Shin Chan e seu futuro parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

BY – “Butt dance

DM – Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero, Berliac. Como foi para você ser abduzido?

BY – Chillin.

DM – Hahaha, perfeito! Obrigada pela entrevista, querido. Aceita uma sobremesa?

BY – Não, faz mal para los dientes.

Lá fora, do outro lado da calçada, arrastando a longa calda de seu vestido vermelho, correndo desajeitadamente, Mariana Abramovic.

berliac

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