Diego Gerlach

DM – Quer pedir um café? Suco?

DG – Eu queria se possível um café com conhaque, obrigado.

DM – Boa! Vou pedir também. (ao garçom) Por favor. (ele se aproxima) Você pode colocar um gole de conhaque no café?

GARÇOM – Sem problema.

DM – Maravilha! Vê dois pra gente, por favor. (ao Gerlach) Cara, que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos?

DG – Inadequação social, sobrepeso na adolescência

DM – Hhahahaa. Jesus… O que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

DG – Sei que é clichê, mas quando a hq tem a habilidade de te carregar junto e você esquece momentaneamente que está lendo uma hq. Acho que é um tanto diferente do que ocorre no cinema, quando na maioria das vezes o que você está vendo é a captação relativamente fidedigna do mundo físico, o que facilita o processo imersivo. Nos quadrinhos, vemos representações pictóricas subjetivas do mundo físico. É uma sensação parecida com a alcançada pelo cinema, só que além disso você aprende uma nova linguagem ao mesmo tempo. Ou, se considerarmos a cultura visual dos quadrinhos como uma língua-mãe, a marca de cada quadrinista é um diferente dialeto que o leitor assimila e aprende enquanto lê. (o café é servido)

DM – “Um diferente dialeto.” Gostei disso. (provo o café com conhaque) Hmm, bom isso aqui, hein?

DG – Contra esse frio não tem melhor. (bebendo o seu)

DM – Realmente. E o que é mais broxante?

DG – Potencial desperdiçado. Tipo, na maioria dos gibis da Bonelli Comics, os desenhos sempre são ótimos e a narrativa é quase sempre medíocre, absolutamente incapaz de te surpreender ou te fazer esquecer por alguns instantes que você está, afinal de contas, lendo uma fórmula.

DM – Esse é o ponto! Não adianta desenhar bonito dentro de um quadro se a narrativa for… ignorada. É uma arte sequêncial antes de tudo, não?

DG – Tão importante quanto o que você desenha (bem ou mal) é o que você omite, o que ocorre entre os quadros. Entre um quadrinho bem desenhado mas morno, e um incrivelmente tosco, mas contado de modo inventivo, fico com o segundo.

DM – Eu também! A sequência deve ser maior que o desenho isolado. Me diga uma quadrinista foda e porquê?

DG – Teria várias.

DM – Quantas quiser, chuchu. A ideia é coloca-las em evidência nem se seja a fórceps!

VOZ EM OFF – (a imagem das autoras estampada em uma página de jornal  aparece girando a nossa frente, citadas por um narrador de filme noir) Rutu Modan, Cynthia Bonacossa, LoveLove6, Kate Beaton, Laura Lannes, Mariana Paraizo, Uli Lust, Sirlaney, Inés Estrada, Heather Benjamin, Anna Haifisch, Jillian Tamaki, Aisha Franz, Lale Westvind, Anya Davidson…

DG – (continuando) Nos quadrinhos de super-herói, os roteiros da Ann Nocenti (que nunca nem soube que era uma mulher na época que lia). E o porquê seria: fazem quadrinhos dos quais gosto e, eventualmente, me influenciam. (mandando ver no café-conhaque)

DM – E eventualmente me exponenciam. Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui? (bebo do meu café turbinado)

DG – Não li esse gibi que você falou, mas vamos ficar nos franceses, então. Tem uma cena em ‘O Espinafre de Yukiko’ que lembro de ter lido de pé, numa livraria, e que me deixou tão ligadão (risos, fica ruborizado) que imediatamente decidi que ia comprar o álbum. Tipo, esbarrei nesse quadrinho por acidente, e não fazia ideia do que se tratava. É uma cena em que o sujeito, que é o próprio autor, Frederic Boilet, dá um beijo grego na namorada, deitada de bruços na cama. Hoje percebo que a cena foi toda desenhada sobre fotos, mas na época não estava ciente dessa possibilidade, então simplesmente achei que o autor tinha um traço inumanamente realístico. Já tinha visto minha cota de quadrinhos eróticos e pornográficos, mas nunca tinha visto um casal retratado com tanta candura durante o ato em si, fragmentando os movimentos de modo quase diagramal, subvertendo a noção que tinha até aquele momento de ‘sexo em quadrinhos’, que era de que o autor deveria se valer de recursos explosivos pra excitar o leitor. A mera descrição mecânica do ato pode ser muito erótica.

DM – Nossa, estou toda gozada… Ui! Vou aproveitar e te fazer uma pergunta indecente, Gerlach. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

DG – Acho q o Pato Donald. Ele é um proleta cheio de raiva, como eu. (risos)

DM – E o proxeleta? Hihihi. Amor, imagine que você está na pele do Donald e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

DG – Pra começar, eu pediria mais um café com conhaque desse aqui. Tá bem bom, é o quê? Domecq? (virando a xícara)

DM (aproveito e mato o meu café também. Dá aquela fisgadinha) Parece, né? (pescoçando pelo garçom) Vou pedir mais uma rodada. (o cara sumiu) Antes uma última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero, Dieguito. Como foi para você ser abduzido?

DG – Como beber chá gelado num orquidário, trajando apenas um quimono de seda tigrada, sem nada por baixo.

DM – Ai, bandida. Obrigada pela entrevista, my angel. Vamos pegar mais uma rodada que o frio tá até passando. (ao garçom que aparece saindo lá dos fundos) Senhor! Vê mais uma rodada dessa pra gente? É Domecq?

GARÇOM – Presidente.

DM – Manda! (ao Gerlach) Cara, tu viu essa série que está todo mundo comentando da Netflix? Strange Things?

DG – Ah, eu vi.

DM – O que você achou?

DG – Achei ok. Não fiquei de cueca molhada.

DM – Pois é. O lado nerd de quem assistiu dever ter levado uns choquinhos no bumbum. Mas não me pegou. Pueril demais. Tem uma “candura”…

DG – É meio, tipo, quando eu era moleque e amava Soundgarden e a galera velha do metal achava uma perda de tempo.

DM – Você gosta quando tem “candura”?

 

          E chega o velho garçom trazendo os cafés turbinados, olhando-nos meio atravessado.

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