Bárbara Malagoli

DM – Quer pedir um café? Suco?

BM – Hmmm. olha, tava muito afim de um choconhaque faz tempo. Tô precisando….

DM – Pô, vamos nessa! (ao garçom) Moço, traz dois choconhaques pra gente? Valeu. (à Bárbara) Então, gata, que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos?

BM – Ah, desenho desde pequena, copiava revistinha tudo torto, essas coisas.

DM – Ainda não consegui desentortar.

BM – Além disso, consumia altas doses de videogame, quadrinho e desenhos animados. Sabia que ia trabalhar com alguma dessas paradas um dia. Hoje sou ilustradora freelancer, urru! (ela está mesmo comemorando?) Mas quadrinho é outro lance, né?

DM – Sim! A pegada é outra.

BM – Quando o Gabriel Goes me chamou pra fazer o “Capitão América e seus amigos” http://barbaramalagoli.com/Comix eu me diverti tanto, consegui expressar meu lado mais escroto e testar um traço que não tem nada a ver com o que eu faço para clientes convencionais. Foi massa!

DM – Se foi!

O choconhaque chega. Agradecemos.

DM- (provando o bicho) Hmmm, do jeitinho que eu gosto. (com Mutella!)

BM – (provando o dela) Hmm, bom mesmo. Daí depois disso, pensei que poderia juntar as minhas ilustrações com estéticas mais pessoais que gostaria de explorar com algumas piras de roteiro que eu tinha na cabeça. O que acabou tomando mais forma no Neo Cortex pro Nébula http://barbaramalagoli.com/Neo-Cortex, Glitter Galaxxia (http://ugrapress.webstorelw.com.br/products/glitter-galaxxia) ( https://deliriumnerd.com/2016/01/26/arte-as-ilustracoes-de-barbara-malagoli-e-glitter-galaxxia/)  e por aí foi. (dando um gole)

DM – E foi bem demais! Vou ter que ser pedante e pagar um pau pro seu trabalho aqui descaradamente, meu. Fo-da! E o que mais te deixa excitada em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade. (uma golada encorpada)

BM – Quando tem uma relação muito próxima ao autor e suas experiências. Adoro ver quando o quadrinho reflete total a pessoa e os dois se tornam uma coisa só. Isso rolou muito no Topografias, consegui enxergar a personalidade de cada uma nas histórias, é tão verdadeiro e precioso. Sinto que fiquei mais próxima delas depois disso ❤

DM – Sim!! Dá pra sacar de longe a identidade visual de todas ali. Agora, algo na escolha das formas, textura que você usou, fez suas páginas parecerem que estão brilhando. Achei extraordinário. Vá se ferrar! (risos). E o que é mais broxante?

BM – Quando a galera faz as paradas só para impressionar os outros. Sei lá, todo mundo tem referências e tal, mas você saca quando o brother ta só punhetando o traço pra parecer um Moebius da vida ou um Taiyo Matsumoto e tá cagando pro feeling da parada. Eu até entendo, mas enxergo isso como uma fuga de um processo muito difícil, porém necessário, que é olhar para dentro e fazer as pazes entre o artista possível e o artista ideal. É melhor ser a primeira versão de si mesmo do que a segunda de outra pessoa. (bebericando)

DM – (pequenos corações saltitam dos meus olhos) Você é sempre assim? (risos) Porque eu devo ser de quinta categoria. (risos) Uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorais ou morrer tentando.

BM – Na real eu sou bem contra remakes.

DM – Eu também, amor.

BM – Talvez seja  pessimismo da minha parte, mas se não for pra fazer algo tão épico quanto a obra original em si, algo com um estudio fodão de animação (tipo Mad House ou Studio 4C) nem tenta! ahaha Se for live action então vixi….medo! Não tô falando que todos são uma bosta, mas acho que devemos aprender a deixar algumas coisas no lugar delas.

DM – A questão aqui é outra, amiga. É a possibilidade de ganhar algum dinheiro com quadrinhos nesse processo de vender os direitos autorais para o cinema. Somente isso. Porque sem isso é viver a mingua. Mas ignore, que se lasque tudo isso. É um tipo de pergunta que não farei mais. (à câmera imaginária) Você pode ganhar alguma coisa com quadrinhos que eu não sei o que é, mas grana, com certeza não será. (à Bárbara) Uma quadrinista foda e porquê? (quadrinista mulher, fora a Brechdel, Laerte e Lovelove6 que ja fora citadas várias vezes)

BM – Vai parecer pagação mas curto muito o trampo de todas as minas do Topografias : Julia Balthazar, Puiupo, Tais Koshino, Lovelove6 e Mazô. São minhas inspirações. ❤ Também curto muito a Giovana Medeiros e Laura Lannes. Uma artista que amo é a Junko Mizuno, sou apaixonada por “Cinderalla”. Ah e a Eleanor Davis também é massa.

DM – Demais! Todas. E a Eleonor… meu, o que é aquilo? (viro meu choconhaque) Você chegou a ler o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès?

BM – Sim, esse quadrinho mexeu muito com meu coraçãozinho. Dei ele para meu ex-namorado quando estava ainda flertando, no comecinho, acredita? (risos) Que vergonha, cara.

DM – E funcionou?

BM – Funcionou. Namoramos dois anos e meio.

DM – O Cloro não falha nunca, hehe. Mas então, tem aquela cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui? (ficou um pouco de Mutella no fundo. Tento pegar com a língua)

BM – Enfim, uma cena que me deixou sem ar, foi enquanto lia ” A balada de Halo Jones” e ela vai para a guerra, num planeta onde tudo era meio slowmotion. Sofri junto, admito. (matando o choconhaque)

DM – Duas. Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.

BM – Acho que tem uma diferença grande em quem você gostaria de ser ou quem você acha que tem mais a ver com você. Para as duas possibilidades, eu seria a Hit-Girl de “Kick-Ass”. Pequena, esquentadinha e boca-suja.

DM – Hahaha, ela é linda! Imagine que você está na pele da Hit-Girl e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

BM – Meter porrada em geral!

DM – Sem dúvida! Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincera, Bárbara. Como foi para você ser abduzida?

BM – Ei! Onde é que eu estou?

É bem provável que essa conversa nunca tenha existido. Bárbara se encontra presa a uma câmera de oxigênio, entubada, imersa em um lodo brilhante. As paredes do lugar parecem com a barriga viscosa de um inseto onde existem outras câmeras. Uma centena delas. Ninguém consegue ouvi-la. Não a nada a fazer a não ser se desesperar.

 

 

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