Audaci Junior

Quer pedir um café? Suco?

Apesar de gostar muito, café não me deixa acordado. Posso tomar um litro, sabe? Mas não estou na “vibe” da cafeína hoje! Vou de limonada… Com um pouco de açúcar pra conversa ser boa! (riso sem graça com o canto da boca)

Mas também tá quente pra dedéu. (levanto a mão ao garçom) Querido.

Meu nome é Venâncio.

O..k… Venâncio, traz duas limonadas pra gente, por gentileza? A minha sem açúcar. (ele se retira) Obrigada! (ao Audaci) Se eu o tivesse chamado de “grande” então, acho que eu ia apanhar aqui. (risos) Pois muito bem, amore, que diabos aconteceu com você para fazer quadrinhos? (sim, ele também faz quadrinhos)

Afi! É um caso de amor! Paixão platônica! Pra você ter uma ideia, não acho que tenha nesse mundo ninguém mais apaixonado pelas histórias em quadrinhos do que eu!

Ai, levado!

Sempre quando aparece alguém do tipo “Ei! Eu sou colecionador de HQs…”, sempre duvido da pessoa! Não tenho como explicar…

Colecionadores são duvidosos por excelência. (risos)

Além de querer ler de tudo, tentei criar também. Fiz um livro-reportagem em formato de HQ, criei um blog de críticas de HQs em formato de HQ – que, pra piorar, emulava o traço do autor resenhado, e agora estou produzindo meu primeiro roteiro de ficção.

Tá roteirizando, hein? Qual é o mote?

É um feto natimorto que “assombra” o ventre da mãe… como uma casa mal-assombrada!

Pelas caridades!! (Venâncio surge do nada, plantando as limonadas em nossa mesa. Que susto!) Valeu. (provamos e aprovamos) Bem, vem coisa boa aí! E o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.

Putz! Deixa ver… (tomando uma bicada de limonada) Excitado fisicamente só a Druuna do Serpieri (risos).

Você não está sozinho nessa. Lamento. (risos)

Mentalmente, uma HQ que dê uma de Cronenberg e exploda a sua cabeça!

Outro cliente chama o garçom, não pelo nome, mas por um assobio.

Acredite se quiser, a cabeça de Venâncio explode!!

Tipo isso?

Tipo isso. Uma história bem contada, um silêncio bem encaixado, um diálogo natural, como a gente tá conversando agora, sem firulas… Gosto de obras que me desafiem intelectualmente, mas também gosto de uma história bem contada! E, nos quadrinhos, uma história bem contada tem que ter uma arte que seduza – mas não necessariamente seja bela -, uma estrutura eficiente e um enredo que prenda sua atenção pra você não largar o álbum ou a revista! Que só lhe dê tempo de dar uma fungadinha entre as páginas, o melhor cheiro do mundo!

É essa agora que eu te peço em casamento, ou depois? (entram los tre  músicos mariachis em cena, mas percebo a gafe. Encerro a cantoria em um gesto a la Jô Soares. Que pena… Não escondo minha frustração.) E o que é mais broxante?

(Voltando de um longo gole da limonada) O velho clichê! Sem curvas, sem “sex appeal”, sem sintonia ou tato! Se for pra colocar a velha fórmula batida e chacoalhada, o autor tem que ter a plena consciência que tá fazendo isso e não tá simplesmente subestimando a inteligência nossa de cada dia! Ai, é limonada sem açúcar!

O que você tem contra limonada sem açúcar mesmo?! (risos)  Uma quadrinista foda e porquê? (volto para minha limonada azeda)

Não posso fazer injustiça em apontar apenas uma! São muitas!

Graças a deus!

Mas destaco aqui, no Brasil, a Lu Cafaggi que, além de ter um traço particular e adorável, acho que tem muito potencial escondido ainda que vamos ver à tona em breve! A versátil Bianca Pinheiro é outra, que mostra que pode ser terna com “Bear” e mostrar as garras em “Dora”!

E muito além disso!

Lá fora, recentemente, duas quadrinistas me chamaram a atenção: a bem-humorada francesa Margaux Motin, de “Placas Tectônicas“, e a israelense Rutu Modan, autora de uma das melhores HQs de ficção do ano passado, “A Propriedade“!

Modan me arrasou de uma tal forma….

Ah! Outra mulher fera que me reeducou sobre o banho – veja só! – foi a japonesa Mari Yamazaki e sua série “Thermæ Romæ“… (tomando goles generosos da limonada)

Como assim?!

No mangá ela fala que se você não esfolear a pele, é como molhar pele morta! Comprei logo uma pedra pome pra esfoliar! Hahahahahahha.

Hahaha! Você sabe que não é bem por aí, né? A pele precisa ter essa proteção que o esfoliamento detona. Enfim, cada um com seus hábitos de higiene. Não vamos entrar nesses detalhes porque, né? Não sei se você leu o quadrinho “Gosto do Cloro”, do Bastien Vivès….

Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?

Eu simplesmente ADORO – com letras maiúsculas – “O Gosto de Cloro”! Uma HQ dele que queria ler muito é “Dans mes yeux”, onde “lemos” exclusivamente através dos olhos do protagonista, que se apaixona por uma garota! Já pensou, Deisy! Para cada leitor em particular que já se apaixonou na vida, essa “leitura” é uma experiência única!

Simmm! Meu deus, é demais!!!! Aí, Au, a gente se entende tanto… Posso chamar os mariachis de volta? Eu… Tá, deixa quieto. Foco, Deisy, foco! (pigarreio) Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui? (nesse exato instante, o SAMU aparece para retirar o corpo decapitado do… do… Qual era mesmo o nome do garçom?)

Bem, tem muitas cenas marcantes nos quadrinhos pra mim, mas duas em particular me lembro agora… Em “Pobre Marinheiro“, adaptação do norte-americano Sammy Harkham a partir de um conto de Maupassant, a mulher deitada ao lado do marido sabe que ele – um velho lobo do mar que está na terra firme há um bom tempo – quer ir embora e se reencontrar com o oceano. Consequentemente, vai se afastar dela. Ele está dormindo e ela, não. Ela encosta o dedo de leve na nuca dele, que desperta, mas não se mexe. Ela não diz nada e se vira. Que cena poderosa!!!!

Céus! Pobre Marinheiro é uma obra-prima!!! Vou ter que falar aqui: Obrigado, Balão Editorial. O-bri-ga-do.

A outra é no mangá “O Lobo Solitário“, de Koike e Kojima, quando o ronin Itto Ogami reencontra seu filho, o pequeno Daigoro. O garotinho está lutando contra a correnteza de um rio e a sua felicidade é tão grande quando reencontra seu pai que deixa de debater e, cheio de alegria por revê-lo depois de tanto tempo, é engolido pelo rio! Olha! Me arrepio só de lembrar!

Estou usando sombrero, ao lado de los três amigos mariachi. Não pude evitar. Mas meu castelhano é mesmo uma merda. Cantando então… Dispenso os amigos pela última vez. Querem que eu acerte mais do que o combinado.

(sentando-me) Você ganhou. Vou te fazer uma pergunta indecente. (pausa) Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem masculino ou feminino dos quadrinhos, quem seria?

Bom, indecente só se eu estivesse nu enquanto você faz essa pergunta! (risos)

MARIACHIS, DE NUEVO AQUI! RETORNO! REtornoo… Já era…

Hmmmm… Podia ser qualquer super-herói da Era de Prata que voasse. Um, eu queria experimentar voar sozinho e ficar longe de todos; dois, as coisas sempre acabariam bem no final, diferente da realidade, mesmo se acontecesse perigos sem pé e nem cabeça!

Personagem feminino? A Mulher-Maravilha é uma guerreira que tem um jato particular invisível e um laço que obriga a todo mundo dizer a verdade… Quem não gostaria dessas bugigangas?! (risos)

Tenho um desses em casa. (lanço meu olhar de rara seduzência) Imagine que você está na pele da Mulher Maravilha e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?

Com certeza, voar pra bem longe, seja num jato invisível ou trajando uma capa esvoaçante! “Pro alto e avante, porra!”

Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido?

Qué isso! Eu é que aperreio as pessoas! (retribui a piscada) Sinceramente, se eu realmente fui abduzido, não me lembro de merda nenhuma! Colocaram aquele apagador neural do MIB na minha fuça!

Obrigada pela entrevista. Aceita uma sobremesa?

Eu que te agradeço pelo papo, Deisy! Sobremesa…? Pode ser uma torta de morango, se tiver ai. Se não tiver, “no problema!”, foda-se! Acho que estou ficando muito bonzinho com as pessoas ultimamente…

Tô sabendoExiste uma crítica ideal?

Uma crítica ideal…? Nunca! Porque se tem muitas “verdades” por ai!

O  que configura uma boa crítica entao?

Um bom crítico, ao meu ver, é aquele que usa seu profissionalismo para “formar” a opinião crítica do leitor. Não como uma “muleta”, mas faz ele perceber coisas que não perceberia numa leitura desatenta… O bom crítico meio que espeta o discernimento desse leitor “anônimo”, saca?

Saco gostoso.

(Risos) Nunca é o dono da “verdade”… porque não existe apenas uma!

Claro, claro.

Por outro lado, o crítico também não é um professor pro quadrinista,o analisado. Ele pode até apontar falhas ou algo que simplesmente não gostou. Cabe o autor a digerir isso pra melhorar – ou não – o seu trabalho….

Não faço críticas pra autores ou editoras, Pra mim, amigos, amigos, críticas à parte!

É o que se presume de um bom crítico, uma análise imparcial.

Exato. E também o crítico tem que saber que não é um roteirista! Não é “eu faria assim e assado”…

O co-autor, ou melhor, o cu-autor. (risos) E como ser imparcial? Ou quantas doses de limonada são necessárias?

Imparcialidade é difícil de conseguir! Numa crítica, existe um caráter mais subjetivo, mais ensaístico, digamos. Mas sem jogar fora a sinceridade de uma análise mais minuciosa e técnica…

Falando em “cu-autor”, ele não vai tomar no rabo se for execrado por um resenhista! Tem gente que vai atrás do gibi pra ver realmente se ele é ruim ou se o crítico está “enganado”…

A eterna curiosidade. Quais são os melhores críticos de quadrinhos?

Nominalmente?

Por favor.

No Universo HQ eu tive muitos professores! Meu editor Sidney Gusman, vulgo Sidão, o Delfin, o Lieson Zeni, o Nasi… Com cada colaborador eu aprendo um pouco!

Quer casar comigo?

O México inteiro de mariachis adentra a cafeteria. É demais até mesmo para mim. Fugimos sem pagar a conta.

audaci-junior

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