Luciano Salles

Quer pedir um café? Suco?
Um café, Deisy.Sem açúcar, por favor.
Também aboli o açúcar. Hoje não faz a menor falta. Lu, vou te fazer algumas perguntas desnecessárias, tudo bem?
Sim, perfeito. Mas acredito que não será desnecessário.Não sabemos, não sabemos… Que diabos aconteceu com você para resolver fazer quadrinhos?
Comecei a fazer quadrinhos com 37 anos. Nada precoce.
O que aconteceu foi que fiquei doente e não conseguia mais trabalhar em meu antigo emprego. (Deisy arqueia a sobrancelha) Tentei mas percebi que seria impossível continuar ali. Pedi para me mandarem embora e quando consegui isso, me vi em um situação estranha. Era um engenheiro civil de quase quarenta anos, sendo que havia trabalhado 12 anos em instituições bancárias, estava então desempregado, picando o ponto no psiquiatra semana sim, semana não.
Foi isso o que aconteceu para eu fazer quadrinhos. Um mês depois da minha rescisão lancei Luzcia, a Dona do Boteco.

Vou dizer uma coisa para você, mas por favor não leve para o lado pessoal. Você é meu herói (pousando a mão sobre a dele). Sério. Se lançar assim em prol de algo que lhe faz mais sentido, mesmo com todas as implicações e inseguranças que é trabalhar com isso, é no mínimo heroico. Tudo bem, tem um pouco suicídio também. Mas não existe arte sem entrega. Pode soltar a minha mão agora. (risos) Luciano Salles, o que mais te deixa excitado em uma narrativa gráfica? Física ou mentalmente, tanto faz. Fique à vontade.
O que mais me excita e ganha é o incomodo que uma narrativa possa me causar. Isso nos aspecto físico e mental. A sensação de desconforto pós leitura é algo fantástico.

Demais! Sei que você irá citar essas narrativas mais tarde. Então, me diga, o que é mais broxante? Um baldo de gelo, eu sei. Mas é assim que vida funciona, não é mesmo?
Quando percebo que o autor(a) está buscando desesperadoramente um aterramento no que o mercado e, por vezes, a sociedade pede. Blah blah blah intelectualóides são um porre também. Nada disso é necessário. O essencial é mostrar o que quer contar. Conte com o coração. Simples assim. Foda-se o que vão achar. Você tem que entregar sua alma ali e o leitor vai achar a tua obra, saca?

Sim. Encontrar algo sincero é sempre tão difícil, mas quando se encontra, quando percebemos sua legitimidade, ele é capaz de transformar. Criam um show pirotécnico geralmente para sustentar uma história pobre de significado. Falando em pobreza, uma vez o Rafa foi categórico, como ele sempre é, e disse que os quadrinhos NÃO são o primo pobre do cinema. Acredito que você compactue da mesma ideia. Mas diga aí um quadrinho que seria legal ver nas telonas. Vamos fazer nossos amiguinhos ganhar uma grana com a cessão de direitos autorias ou morrer tentando.
Então vamos morrer tentando. É mais honesto, há lastro nisso e o Rafa está correto na afirmação. Posso citar um livro para adaptação?

Você pode tudo, amore.
“Miguel e seus demônios” do Lourenço Mutarelli.

Se não estiver em processo, provavelmente vai entrar. Estão filmando tudo dele. Só não sei o que rolou com o “Dobro de Cinco”. Enfim. Uma quadrinista foda (fora a Brechdel que já está na boca do povo) e porquê?
Gosto do trabalho da Bianca Pinheiro. Especificamente por “Dora” e “Meu pai é um homem da montanha”. Esse dois quadrinhos, como disse, me causaram desconforto pós leitura. “Meu pai é um homem da montanha” acabou e acabou mesmo. Reli no dia seguinte. Gostei mais ainda. Em Dora a mesma coisa. Quando as crianças choram cantando no aniversário.

Ah, a Bianca… Ela é fenomenal! Já até confirmou de vir aqui qualquer dia desses, acredita? Que coisa!  Não sei se você leu o quadrinho Gosto do Cloro do Bastien Vivès…. Um casal de personagens está nadando na piscina. Tem uma cena onde ela diz algo debaixo d´água e ficamos sem saber o que ela disse. Aquilo me pegou de jeito. Existe alguma cena nos quadrinhos que vale a pena comentar aqui?
Aquilo é demais. Essa revista é um absurdo de bonito.
Sabe, tem um trecho de “Odisseia Cósmica” que um personagem vai cometer um suicídio. Entre toda aquela epopeia interestelar, entra essa sequência de nove quadros, se não me engano, que na época – isso faz muito tempo – foi de certa forma impactante pra mim. Aquilo ali valeu por toda obra.

E eu me desfiz da Odisseia quando morava com meus pais porque não tinha mais lugar para guardar gibis… (suspira) Vou te fazer uma pergunta indecente. Posso? (pausa) Não é algo que eu queira perguntar, mas preciso seguir um roteiro. Se você fosse um personagem dos quadrinhos, quem seria? Desculpa.
Que difícil isso Deisy… Seria o Haroldo.

Rapaz, você chegou a cruzar com o Felipe Nunes? Ele saiu correndo daqui. Na verdade todo mundo saiu correndo. Posso estar enganada. Acho que vi o Nunes se transformar no Calvin… Eu sei. Parece um absurdo. Não consegui ver muita coisa na correria, foi uma confusão dos diabos, mas cara…
Não vi ninguém Deisy. Qual o motivo da correria? Está tão sussa aqui.

Furei um nódulo que ele tinha nas costas. Eu sei, não devia ter feito isso. O que aconteceu em seguida, cara… Não gosto nem de lembrar. Vamos mudar de assunto? Imagine que você está na pele do Haroldo e seu futuro, por algum motivo, parece desesperador. O que você gostaria de fazer exatamente agora?
Ficar imóvel.

Eu também tenho dessas. Última pergunta e prometo não te aporrinhar mais. Ao menos, não por enquanto. (piscadinha) Mas gostaria que você fosse sincero. Como foi para você ser abduzido?
Foi prazeroso até pelo fato de ansiar por isso. Conheci Enoque.

O Enoque?! E ele? Foi abduzido antes do dilúvio, não foi? Ele ainda está lá? Meu deus…
Sim, foi abduzido antes. Foi poupado. Trocando figurinhas com ele, me disse que gostou tanto de lá que os 40 anos foram pouco. Por isso estendeu a permanência. Gente fina.

Olha aí! Grande Enoque. Faz todo sentido. Obrigada pela entrevista, querido. Aceita uma sobremesa?
Aceito, sim, um outro café. Sem acúcar, por favor. Se tiver aqueles chocolatinhos de menta sabe? Gosto.

Eles geralmente trazem os chocolates… Acho que estão racionando. É… a coisa tá feia. (procurando pelo garçom) Moço!

Ele vem atende-los.

luciano

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